07 setembro 2011

Artigo de Roseli Brito


Indisciplina na Sala de Aula: Os 5 Erros que os Professores Cometem e como Evitá-los

Autora: Roseli Brito
Fonte: http://www.sosprofessor.com.br/blog/?p=430


É muito estressante e até emocionalmente doloroso lidar com a ansiedade de ter de enfrentar, todos os dias,  uma turma que você não está certa de poder controlar. O que , de fato, é realmente frustrante nesta situação é: ter responsabilidades a cumprir e não ter as devidas ferramentas para fazer isso.
Lembro bem no início da minha carreira, o sentimento de incapacidade que eu sentia, antes de descobrir as ferramentas certas para combater a indisciplina na sala de aula.  Você se sente insegura, chegando a duvidar da sua competência enquanto Professor. É frustração, misturado com raiva e impotência. É inclusive esse conjunto de sentimentos negativos que levam muitos Professores a desistirem da profissão.
O triste de tudo isso é que, muitos que desistem prosseguem acreditando que falharam na profissão, enquanto que a verdade é que não tinham ferramentas apropriadas para lidar com a questão.
Nos bancos das Universidades ninguém toca nesta questão parece que a única coisa que o Professor tem de fazer é entrar na sala e “dar” aula. Ninguém fala  da falta de educação e desrespeito, ninguém comenta sobre a indisciplina ou violência, ninguém aborda a falta de limites e muito menos, sequer sugere o que fazer quando a situação não está no nosso “script”, chamado Plano de Aula.
Em um roteiro quando é produzido um filme ou peça de teatro, há um “script”, e tudo deve ser feito conforme está escrito e determinado lá. Mas, e na sala de aula, quando nosso “script” não dá conta do nosso dia a dia? O que fazer então ?
Para ser honesta, sempre parecia que todos a minha volta queriam mais era que eu perdesse essa batalha, pois viviam alertando-me acerca do que os pais iriam dizer ou fazer. Na verdade todos estavam mais preocupados em não perder os alunos ou ainda não provocarem a ira dos pais,  do que oferecer o apoio que eu precisava.
Aprendi às duras penas, que tudo o que haviam  dito a respeito de como disciplinar os alunos estava errado pois  não funcionava. Na verdade, a única coisa que eu precisava era que os alunos fossem 100% respeitosos, fizessem as tarefas, e prestassem atenção todas as vezes.
Assim, não importasse a classe social do aluno, seu histórico de comportamento, seu nível de socialização. Uma vez que esse aluno entrasse na minha sala de aula, ele deveria dar conta de suas responsabilidades e cumprir suas tarefas.  Há muitos anos atrás esta afirmação já era utópica, no entanto ainda hoje, para muitos ela ainda é um “delírio” impossível de alcançar.
Hoje é sabido, que mesmo a pior turma, e ainda que  a escola esteja localizada em um meio hostil, este objetivo pode ser alcançado. Não ocorrerá do dia para a noite, será preciso esforço, paciência e principalmente persistência.
A “mágica” ocorre quando você descobre e utiliza  as ferramentas e estratégias apropriadas que tornam todos os alunos mais responsáveis e aplicados. Ao ter em mãos essas novas ferramentas  a sua sala de aula sofre uma transformação porque o seu  jeito de dar aula também muda.
Constatei ao longo da minha carreira que a indisciplina ocorre por uma série de fatores, porém alguns desses fatores era eu mesma que provocava. Isso mesmo ! Não estou aqui eximindo a parte que cabe a família, ao gestor, ao governo, aos astros, seja lá quem for que você queira transferir a culpa, o fato é que tive de dar a mão a palmatória, descer do salto,  humildemente reconhecer esse fato e procurar consertar o que era a minha responsabilidade fazer.
Veja abaixo os 5 grandes erros que eu cometia e, infelizmente,  muitos Professores estão cometendo, talvez até você, inconscientemente, também esteja. Por isso é hora de rever sua prática em cada um dos itens abaixo:
- Erro no. 1: Disciplinar toda a sala de uma só vez
- Erro no. 2: Bater boca com o aluno, ao invés de dar a direção do que fazer
- Erro no. 3:  Ameaçar, ameaçar, ameaçar e …….não cumprir
- Erro no. 4: Uso de linguagem não verbal de forma inadequada


 - Erro no. 5:  Aula chata do começo ao fim


Indisciplina: Erro 1 – Disciplinar toda a sala de uma só vez


Alerto novamente que, as causas da indisciplina dentro da Escola são várias tais como: Família, Gestor, Governo, a Mídia, etc, etc., porém não serão objetivo deste artigo no momento.
Já disse em outros momentos que dentre todos esses “personagens” o único que temos controle é sobre o NOSSO comportamento. Assim será muito mais inteligente e menos penoso fazer os ajustes que forem necessários nos nossos comportamentos, que ficar dando murro em ponta de faca tentando mudar os comportamentos das outras pessoas.
Mas, vamos ao Erro no. 1 que eu cometia que era: Disciplinar toda a sala de uma só vez. Nos meus dias de Faculdade haviam dito que ao entrar na sala de aula eu deveria mostrar respeito, que ao fazer isso, em contrapartida os alunos também teriam respeito por mim.
Era mais ou menos assim: “ Entre na sala de aula e diga a todos que você exige respeito e silêncio “ . Nisso se resumia o ensino de “gerenciamento da sala de aula” na Faculdade. Logo descobri a precariedade desse “ sistema” quando comecei a dar aulas.
A luta era inglória: de uma lado a Professora recém formada (eu) e do outro 40 alunos com 15 anos de “praia” cada um com vasta experiência em tumultuar a sala de aula. Quem vocês acham que vencia todo o tempo ?????
Lá estava eu gritando o tempo todo “fiquem quietos”, no começo até ficavam por 5 segundos, depois começavam tudo novamente. A pergunta aqui é: “ Será que eles não me ouviam ? “ . Claro que eles ouviam.
E mesmo assim eu ficava o ano inteiro tentando disciplinar a sala toda de uma só vez. Você já deve ter assistido algum filme de ação onde chega um momento em que o mocinho tem de lutar com 15 pessoas, e se você reparar bem, ele não luta com os 15 de uma só vez, e sim com UM de cada vez.
Agora pense por um minuto, se o mocinho luta com um por vez, porque você acha que conseguirá disciplinar toda a sala de uma só vez? A resposta é: você não conseguirá !!
Dica no. 1) Eles obedecem não é porque você FALA para ficarem quietos, Eles obedecem porque você toma uma AÇÃO e com isso eles recebem uma CONSEQUÊNCIA.
O que deve ser feito é, pegar um aluno, isso mesmo, apenas um aluno de cada vez. Voltando a luta do mocinho no filme você observará que sempre que ele começa a luta, e já derrota os 5 primeiros, os demais sabendo que serão derrotados, desistem e…..fogem…
A analogia com o mocinho é para que fique claro que, uma vez que você neutraliza alguns alunos, o restante da turma desistirá da bagunça com temor das conseqüências.
Frente a uma situação de indisciplina sempre pense da seguinte forma: “ Qual ação poderei tomar aqui”, ao invés de “ o que eu digo para esse aluno”. Pois não se trata do que dizer, mas do que fazer.
Dizer para o aluno: “ Atila, já mandei você ficar quieto senão você vai ver…?!” . Vai ver o quê? Na verdade você precisa impor ao Atila uma conseqüência que ele de fato sinta, e que o restante da classe pense “ eu não queria estar no lugar dele “.
Lembra que falei anteriormente em você escolher um dos alunos que estiver fazendo a bagunça, ou ocasionando o tumulto na sala ? Mas qual deles ? Aqui vai um pequeno exercício para você treinar ? Escolha uma das opções:
a) escolher a aluna quieta que está estudando lá no fundo da sala, pois será mais fácil lidar com ela
b) escolher o aluno mais falante da turma
c) escolher aleatoriamente qualquer aluno
d) escolher o aluno que sempre provoca e lidera a confusão
A opção correta é a ‘D’; afinal ao neutralizar o líder, os demais estarão sem direção e poderão ser liderados pelo Professor.
Aborde esse aluno calmamente com uma voz firme, e os outros alunos logo darão atenção a situação ficando quietos e atentos, pois o que eles estão esperando é ver quem vai ganhar esse embate. Assim, você caminhará até o Atila e já deverá ter traçado a conseqüência que fará o Atila tremer. A chave aqui é que a conseqüência tem de ter um peso que incomode o aluno. Quando a classe vê o que acontecerá ao Atila, os ânimos logo se acalmam.
Alertando: quando uma situação ocorrer na sua sala de aula, detecte sempre o líder, aquele em que os outros sempre seguem. Aposto que você já até sabe quem são eles na sua sala de aula.
Com certeza o Atila, furioso, lhe fará perguntas do tipo : “ Porque eu ? O que foi que eu fiz ? “ . Você simplesmente ignorará qualquer tipo de protesto, pois a pior coisa a fazer é bater boca com aluno (isso veremos no Erro no. 2).
Dica no. 2) Dividir para Somar
Aprendi que quando eu disciplinava a sala inteira, dando advertência ou suspendendo todos de uma vez, eu fortalecia o senso de grupo que os alunos tinham entre si. Eles eram um grupo, e eu era o inimigo. Lembra o lema dos “3 Mosqueteiros” , “um por todos e todos por um “. Eu os fazia sentir que faziam parte de algo maior.
Assim a saída encontrada foi dividir o grupo, provocar uma rachadura, isolar o líder. Ao fazer isso o grupo “órfão” do líder precisava ser acolhido, mas agora pelo Professor.
Por isso, se amanhã, os “Atilas” da sua sala insurgirem com desrespeito e indisciplina, não tente discipliná-los todos de uma só vez. Isole primeiro o líder, e depois isole o próximo, se for necessário.
Veja que apenas fazendo ajustes na maneira de como você lida com essas situações já fará uma enorme diferença na qualidade das suas aulas e no rendimento do seu tempo. Comente no blog os resultados que você conseguiu com esses ajustes.


Erro no. 2: Bater Boca com o Aluno


Quer você seja um Professor recém formado ou veterano, tenho certeza que já vivenciou, alguma, ou várias situações envolvendo ” bate boca” com aluno. Provavelmente você ficou estressada, perdeu tempo, atrasou o planejamento , desentendeu-se com os Pais do aluno, levou bronca da Coordenação, desgastou-se e…. não chegou a lugar nenhum.
Na verdade, essas situações potencializam a indisciplina já existente na sala de aula, pois drena todas as forças, motivação, interesse e paciência do Professor.
Mas, para compreendermos como lidar com situações de “bate boca” é preciso conhecermos como elas se desenrolam e o que as desencadeia, para que possamos definitivamente combatê-las e extirpa-las.
O que é o “bate-boca” ?:
Coloquialmente denominamos de “bate boca” toda discussão verbal, que ocorre de forma acalorada com a troca de palavras ásperas, e no final das contas não se resolve nada, portanto mostram-se inúteis. Quando discussões deste tipo ocorrem na sala de aula servem para tumultuar e deixar todos de ânimos exaltados.
Tipos de bate boca:
Existem três grandes gatilhos que prenunciam que um “bate boca” vai começar, são eles:
1)Fazer perguntas redundantes:
Átila, porque você está conversando? Já não falei que é para fazer a lição ? “
Parece familiar ? Pois é, eu também já fiz perguntas desse tipo. Quando fazemos perguntas redundantes é como se, implicitamente, disséssemos aos nossos alunos :
“ Átila, farei uma pergunta redundante para que você possa distorcê-la e manipular-me e quem sabe até ficar com o controle da situação, talvez a sala inteira até divirta-se às minhas custas se você complementar com alguma gracinha no final “.
Ao fazer uma pergunta redundante, que tipo de resposta você acha que obterá do aluno ?
“ Sabe “Pro”, converso porque eu não estou a fim de assistir sua aula, então prefiro “papear” com os meus colegas ao invés de prestar atenção no que você fala”.
Com certeza não era a resposta que você esperaria receber ! No entanto é a resposta que você obterá na maioria das vezes.
Usar perguntas redundantes, achando que estará disciplinando efetivamente, é uma ilusão, e o que é pior, você abrirá uma brecha para ser manipulada e tornar-se o alvo das chacotas por parte dos alunos.
2)Argumentar com aluno
Professor: “ Atila, já falei que você não pode sair da sala ”
Átila: “ mas por quê não ? “
Professor: “ Porque você tem de esperar o horário do intervalo”
Átila: “ porque então você deixou o Ivan sair ? “
Professor: “ Porque o caso dele é diferente “
Átila: “ diferente por quê? Eu também preciso ir .
Qualquer situação onde o Professor entra em uma argumentação sem fim, inevitavelmente, acabará em “bate boca”. Não demorará muito para ambos os lados estarem exaltados, com voz alterada e trocando ofensas.
3)Pedir justificativas
Quando o Professor exige que o aluno justifique o injustificável, está pedindo para ouvir o que não quer.
Professor: “ Atila, porque você colou chiclete no cabelo da colega ? “
Átila: “ Porque ela é uma chata”
Professor: “ Ivan, porque você colou na prova ? “
Ivan: “ Não era cola, foi só um lembrete caso eu esquecesse das respostas”
Professor: “ Porque você estava brincando na aula de Matemática ? “
Ivan: “ Eu não estava brincando, estava explicando para meu amigo  um novo passo de dança “.
Situações que provocam o aparecimento do “bate boca”:
Como já foi dito anteriormente, algumas situações de indisciplina são potencializadas pela nossa postura, no entanto outros fatores também contribuem para o aparecimento do “bate boca” dentro da sala de aula entre aluno e Professor, tais como:
- aluno chega irritado de casa ou da rua
- aluno que ouve os Pais depreciarem o trabalho do Professor
- Professor que já está esgotado de dar várias aulas seguidas
- quando a turma ignora o Professor
- quando o trabalho do Professor é depreciado pela Direção/Coordenação
- quando o Professor demonstra-se inseguro ao entrar na sala de aula
- quando o Professor é permissivo ou quando é autoritário
- quando o aluno sabe que os Pais virão à Escola para reclamar do Professor com a Direção
Como agir :
Por muito tempo eu ficava aflita e apreensiva, pois essas situações me angustiavam. Com o passar do tempo e depois de muito tropeçar e cair cheguei a constatação que lidar com tudo isso requeria um conjunto de medidas que não estavam em minhas mãos, e sim nas mãos do Gestor, e até do Poder Público.
Seria ótimo se na minha Escola eu pudesse contar com:
- Um Orientador Educacional
- Um Programa de Saúde/Qualidade de Vida para Professores
- Um salário digno que possibilitasse que eu permanecesse em dedicação exclusiva em apenas uma Escola
- Que a minha Escola tivesse implantado uma Escola de Pais, onde as Famílias aprenderiam mais sobre educar os filhos e seriam cobradas por isso.
- Que os Gestores tivessem mais preparo técnico quanto a gestão administrativa e pedagógica da Escola
Mas, como boa parte destas medidas, infelizmente, ainda é uma utopia, até mesmo para os dias de hoje, resolvi investir em medidas em que EU pudesse controlar e implantar.
Assim, além de evitar tudo o que foi exposto acima, passei a dar ao aluno a DIREÇÃO do que ele deveria fazer.
Ao constatar que o Átila estava conversando, eu não perguntava, não queria mais justificativas, e muito menos entrava em argumentação com o aluno. Simplesmente ele era informado do que deveria fazer.
Professor: “Átila, este não é o momento para conversa. Retome a sua tarefa, pois dentro de X minutos, você e mais 5 colegas realizarão a correção dos exercícios no quadro negro “
A minha dica é, diariamente temos de aprender com nossos erros e procurar tirar proveito deles para criar novas ferramentas, estratégias que nos auxiliem a implementar as mudanças em nossa postura, e principalmente revermos e ampliarmos nosso conhecimento técnico sobre gerenciamento da sala de aula, relacionamento interpessoal, resolução de conflito e novas práticas de ensino.
Se essas dicas foram úteis para você, comente no blog


Erro no. 3: Ameaçar, ameaçar, ameaçar e…não cumprir

Você já passou pela situação de ter de chamar a atenção de um aluno “indefinidamente” e ele nem dar a mínima para você ? Com certeza, nessa situação você chamou a atenção uma vez, depois duas, depois três e……nada do aluno fazer o que você pedia.
Na verdade demorei muito para aprender que, ao dar vários “avisos” eu estava, dando ao aluno um passe livre para que ele continuasse a fazer o errado.
Você já deve, também ter ouvido a seguinte pérola do aluno: “ não adianta mandar bilhete não, porque minha mãe não vai fazer nada comigo “.
No meu primeiro ano de magistério, lá estava eu ávida para aplicar tudo o que havia aprendido na Faculdade. Agora era a hora de colocar em prática tudo o que os teóricos e especialistas diziam que era apropriado para disciplinar os alunos mais afoitos.
Então o que eu fazia quando os ânimos começavam a ficar inflamados e a sala a sair do controle era pegar o giz de escrever e anotar no quadro o nome de quem estava bagunçando. Como segundo aviso, caso o aluno continuasse bagunçando , (claro que eles continuavam), eu fazia o quê? Uma MARCA ao lado do nome dele que já estava no quadro. E como terceiro aviso, caso ele ainda persistisse na bagunça (eles sempre persistiam), eu sempre encontrava uma outra mega maneira que não levava a nada.
Como eu logo descobri, esse “sistema” não funcionaria nunca. Quem iria intimidar-se com o nome no quadro ? Ou com uma marca ao lado do nome ? O aluno sempre esperava que eu fornecesse uma conseqüência , e na verdade o que eu dava para ele era um “ passe livre” para continuar bagunçando.
No final da aula, além de eu ter uma folha toda decorada e marcada com vários nomes eu ainda continuava com uma sala de aula toda desgovernada. Moral da estória: eu estava longe de saber o que devia fazer.
Depois de muito observar, tentar, testar, insistir, retroceder depois voltar, analisar os teóricos e os especialistas, constatei que não existe uma receita que se aplique a toda as situações. Cada indivíduo e cada situação, são únicos e, portanto exigirão soluções específicas.
Infelizmente, há muitos Educadores ávidos de soluções prontas, ficam eternamente em busca do “ Santo Graal da Sala de Aula” e se frustram dizendo que a teoria, que cursos, que idéias, que sugestões, nada funcionam.
O fato é que, TUDO contribui para criarmos o nosso próprio sistema de gerenciamento da sala de aula no que diz respeito a criar as conseqüências, as regras, o manejo da turma, a preparação das aulas, a seleção das estratégias e atividades.
Seja lá qual for a conseqüência que você tenha definido para inibir o comportamento desrespeitoso de um aluno, seja tirá-lo da sala de aula, seja fazê-lo apresentar um resumo da lição para todos da sala no intuíto de verificar o entendimento, seja chamar os Pais, acionar a Coordenação, fazê-lo copiar 100 vezes no caderno “ não farei mais isso” (ainda tem Professor que pede isso), o segredo é: aplicar a consequência IMEDIATAMENTE.
Isso mesmo, sem dar aviso, sem dar dica, sem ficar adulando ou ameaçando. A eficácia de qualquer sistema de gerenciamento da sala de aula envolve a seguinte premissa: cumpra, imediatamente, o que foi combinado. Nada de julgamentos, bate-boca, justificativas. Seja certeiro e cumpra a sentença.
Faça a seguinte conta: Em uma sala com 30 alunos, cada um tem direito a receber até 3 avisos antes que o Professor tome alguma providência teremos então 90 momentos de bagunça até que o aluno receba a devida conseqüência pelos seus atos. Então a saída é: não dar aviso NENHUM.
Errado: “ Átila, fique quieto. Se eu tiver que ir até a sua carteira, você já sabe o que vou fazer, blá, blá, blá “
Correto: “ Átila, você está atrapalhando a sala de aula. Você ficará 15 minutos após a aula para finalizar suas tarefas”
Talvez a sua pergunta seja: “ A estória terminaria aí ” ? Provavelmente não. No entanto ao cessar em dar tantos avisos, ou de ficar ameaçando e não fazendo nada, o Professor estará contribuindo para criar uma atmosfera de paz.
Se você já desenvolveu ou está desenvolvendo um sistema de gerenciamento de sala, compartilhe no nosso blog. Trocar experiências com outros colegas pode fornecer excelentes idéias e estratégias.


06 setembro 2011

Ponto Negro


Certo dia, um professor chegou na sala de aula e disse aos alunos para se prepararem para uma prova-relâmpago.

Todos acertaram suas filas, aguardando assustados o teste que viria.
O professor foi entregando, então, a folha da prova com a parte do texto virada para baixo, como era de costume.
Depois que todos receberam, pediu que desvirassem a folha.
Para surpresa de todos, não havia uma só pergunta ou texto, apenas um ponto negro, no meio da folha.
O professor, analisando a expressão de surpresa que todos faziam, disse o seguinte:
- Agora, vocês vão escrever um texto sobre o que estão vendo.
Todos os alunos, confusos, começaram, então, a difícil e inexplicável tarefa.
Terminado o tempo, o mestre recolheu as folhas, colocou-se na frente da turma e começou a ler as redações em voz alta.
Todas, sem exceção, definiram o ponto negro, tentando dar explicações por sua presença no centro da folha.
Terminada a leitura, a sala em silêncio, o professor então começou a explicar:
- Esse teste não será para nota, apenas serve de lição para todos nós. Ninguém na sala falou sobre a folha em branco.
Todos centralizaram suas atenções no ponto negro.
Assim acontece em nossas vidas.
Temos uma folha em branco inteira para observar e aproveitar, mas sempre nos centralizamos nos pontos negros.
A vida é um presente da natureza dado a cada um de nós, com extremo carinho e cuidado.
Temos motivos para comemorar sempre!
A natureza que se renova, os amigos que se fazem presentes, o emprego que nos dá o sustento, os milagres que diariamente presenciamos. No entanto, insistimos em olhar apenas para o ponto negro!
O problema de saúde que nos preocupa, a falta de dinheiro, o relacionamento difícil com um familiar, a decepção com um amigo.
Os pontos negros são mínimos em comparação com tudo aquilo que temos diariamente, mas são eles que povoam nossa mente.
Pense nisso! Tire os olhos dos pontos negros de sua vida.
(Autor desconhecido)
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Reunião de Professores



ESTRATÉGIA


Um senhor vivia sozinho em Minnesota. Ele queria virar a terra de seu jardim para plantar flores, mas era um trabalho muito pesado. Seu único filho, que o ajudava nesta tarefa, estava na prisão. O homem então escreveu a seguinte carta ao filho:
"Querido Filho, estou triste, pois não vou poder plantar meu jardim este ano. Detesto não poder fazê-lo, porque sua mãe sempre adorou flores e esta é a época certa para o plantio.
Mas eu estou velho demais para cavar a terra. Se você estivesse aqui, eu não teria esse problema, mas sei que você não pode me ajudar, pois estás na prisão.
Com amor, Seu Pai."

Pouco depois, o pai recebeu o seguinte telegrama:
"PELO AMOR DE DEUS, Pai, não escave o jardim! Foi lá que eu escondi os corpos!"
Como as correspondências eram monitoradas na prisão, às quatro da manhã do dia seguinte, uma dúzia de agentes do FBI e policiais apareceram e cavaram o jardim inteiro, sem encontrar qualquer corpo.
Confuso, o velho escreveu uma carta para o filho contando o que acontecera.
Esta foi a resposta:
"Pode plantar seu jardim agora, amado Pai. Isso foi o máximo que eu pude fazer no momento."

Estratégia é tudo!!!
Nada como uma boa estratégia para conseguir coisas que parecem impossíveis.
Assim, é importante repensar sobre as pequenas coisas que muitas vezes nós mesmos colocamos como obstáculos em nossas vidas.

"Ter problemas na vida é inevitável,
mas, ser derrotado por eles é opcional!
Fonte: http://educandocomcarinhoo.blogspot.com/ 

04 setembro 2011


As crianças aprendem o que vivem

 

Se as crianças vivem em meio a críticas,
aprenderão a condenar.
Se as crianças vivem em meio à hostilidade,
aprenderão a brigar.
Se as crianças vivem sendo ridicularizadas,
irão se tornar tímidas.
Se as crianças vivem com vergonha,
aprenderão o sentimento de culpa.
Se as crianças vivem onde há incentivo,
aprenderão a confiança.
Se as crianças vivem onde ocorre a tolerância,
aprenderão a paciência.
Se as crianças vivem onde há elogios,
aprenderão a apreciação.
Se as crianças vivem onde há aceitação,
aprenderão a amar.
Se as crianças vivem onde há aprovação,
aprenderão a gostar de si mesmos.
Se as crianças vivem onde há honestidade,
aprenderão a veracidade.
Se as crianças vivem com segurança,
aprenderão a crer em si mesmas e naqueles que as rodeiam.
Se as crianças vivem em um ambiente de amizade,
aprenderão que o mundo é um lugar bom para se viver.
(Dorothy Law Nolte)

30 agosto 2011


Papo-cabeça Pra Pensar


A casa fica ao lado de seu antigo restaurante, que fechou. Jardim, árvores. Rubem Alves nos recebe com alegria. Nasceu a 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas. A família se mudou para o Rio em 1945. Colegas zombavam de seu sotaque. Buscou refúgio na religião. Teve aulas de piano. Estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP) e iniciou carreira como pastor.

Tem três filhos. É mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary, de Nova York. Com o golpe militar de 1964, perseguido como subversivo, abandona a Igreja Presbiteriana e volta aos Estados Unidos. Torna-se doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary. Considera a tese de doutoramento, Uma Teologia de Esperança Humana (1969, Corpus Books), “um dos primeiros brotos” da Teologia da Libertação.

Volta para o Brasil e, em 1973, vai para a Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Fez-se psicanalista.

É admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, José Saramago, Friedrich Nietzsche, T. S. Eliot, Albert Camus, Santo Agostinho, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa. Num de seus livros, Estórias de Quem Gosta de Ensinar, investe contra os vestibulares.

Conversamos quase duas horas sobre educação. Tem idéias instigantes, ditas com humor: “A escola tradicional é um amontoado louco de absurdos”.

Aos colegas educadores, lança: “Saber o programa é saber o saber cristalizado, mas a vida faz perguntas que você não imagina”.

Entrevistadores - A Unesco divulgou um dado ruim para nós: cerca de 30% das crianças de 7 a 16 anos estão fora da escola.

Rubem Alves - Vou dizer mais, a escola não tem o menor sentido para elas. Há três tendências na educação, talvez mundial. A primeira é da escola tradicional, é um amontoado louco de absurdos. Diretoras acham que são guardiãs do patrimônio do Estado. Conheço bibliotecas que são trancadas, para as crianças não “estragarem” os livros. Umas coisas malucas.

Estou escrevendo a história do menininho cujo pai diz: “— Você precisa ir para a escola. O que você vai ser?”. “— Eu quero ser eu.” Ele, no primeiro dia, aprende coisas fantásticas. Depois descobre que há hora certa para pensar, é o que diz a campainha: “Agora você vai pensar português 45 minutos”; toca a campainha: “Agora pensa matemática”. É o modelo da linha de montagem. Você toma por assentado que todas as crianças são a mesma estrutura básica. Não respeita as peculiaridades, que as crianças são diferentes.

Essa idéia de que todo mundo tem que aprender para fazer prova. Com isso, a gente está destruindo coisas fantásticas.

Acabei de voltar de Fortaleza e tinha uma bandinha de flautas com crianças. Fiquei encantado com o maestro, serviço voluntário, não ganha um tostão. E ele tinha apenas 18 anos. As crianças adoram, e agora ele quer ensinar em outra cidade. Qual é o lugar de um sujeito desse na educação? Não existe.

O segundo caminho é de educação através da Internet. Não existe mais conceito de hora de aula. Quem é que dá aula? Você pode ir à Internet às três da manhã. Tem a liberdade de procurar o que quer. Só tem um problema: educa para o mundo rico. O povo lá de beira-rio, ainda que tenha computador, não tem nada para eles.

Uma terceira alternativa que vejo com alegria é que estão pipocando coisas. Parece que os professores estão cheios, e coisas interessantíssimas estão surgindo sem ter nada a ver com Internet, com governo. Em Tocantins, a 400 quilômetros de Palmas, crianças e professores começaram a desenvolver um programa com os velhos. Aqueles que trabalham na enxada, analfabetos. Os velhos contam histórias de antigamente, brinquedos antigos, e eles vão ensinar para os velhos o quê? Pelo computador, eles descobriram que não precisam pegar na caneta para escrever. Basta bater o dedo na tecla, a letra aparece. Estão alfabetizando os velhos através de computador.

Noutra cidadezinha, fizeram um programa: troque uma leitura por um saco de mangas. Fizeram uma espécie de lojinha, com textos pendurados no barbante. A pessoa lê e depois tem que escrever um parágrafo sobre a história. Ganha um saco de manga.

Outra, a biblioteca ambulante. Pegam um carrinho de pedreiro, enchem de livros, vão para as ruas da periferia, fazem uma barulheira, distribuem livros, que coisa linda!

E - A gente, em geral, acha que conhecimento não precisa necessariamente ter função. Não é interessante, sim, ter essa motivação, para que o conhecimento se cristalize?
RA - Recebi e-mail de uma professora pedindo dicas de como motivar as crianças a aprender. Disse a ela: “Tem um erro na sua pergunta. Pergunte: ‘O que a gente tem que fazer para motivar uma criança a tomar sorvete?’ Nada. O sorvete já é motivação suficiente. ‘O que tem que fazer para motivar uma criança a comer jiló?’. Muita coisa.” Quando você vem com a idéia da motivação exterior é porque alguma coisa está errada com o objeto. A criança não quer aprender aquilo. Isso é da vida. Tudo aquilo que significa desafio vital, a gente quer aprender. Um exemplo bem besta: se você estiver com uma pedra no sapato, sua vida mental se centraliza naquele ponto e você quer tirar o sapato. A mesma coisa com o conhecimento; se você tem uma necessidade, você logo começa: “O que eu vou fazer?”

Se eu fosse fazer um currículo, um ambiente a ser explorado seria uma casa. Veja, nessa sala, o que tem de física aqui? Os materiais. Logo de saída você tem papel, madeira, plástico, couro, vidro, pedra. Se você começar a trabalhar isso, tem um mundo de coisas que aprende. Física mecânica: uma criança de seis anos, se você colocar um prego, uma cabeça de martelo em cima e perguntar se vai pregar o prego, ela vai dizer que tem de bater. Enunciou uma lei da física: força igual à massa vezes aceleração. As coisas são óbvias. As crianças vão aprender a fazer coisas. Geometria, está tudo aqui: fio de prumo, nível; no madeiramento, você descobre a lei de composição de forças. Biologia, a vida, galinhas e passarinhos.

E - Você ia contar algo com que sonha há algum tempo.
RA - Meu sonho era ter um currículo voltado para a casa. Uma coisa que não seja decorar nome. Qual é o sentido para um adolescente de periferia aprender o nome das enzimas que ajudam na digestão? O que ele faz com esses nomes? Só tem uma resposta: serve para responder na prova. A coisa que tem sentido é aquilo sobre o que a gente fala. Se não falar sobre aquilo, não é conhecimento. Também quero saber o cotidiano. A cozinha é lugar maravilhoso para se aprender química.

Proponho que os vestibulares sejam substituídos por um sorteio. A idéia surgiu na Unicamp. A gente queria aluno que pensasse, e não que soubesse respostas. Porque não existe nada mais contrário à inteligência do que saber as respostas. A inteligência se testa pela capacidade de fazer perguntas. Um amigo engenheiro, virou e disse: “O melhor seria um sorteio”. Caí na risada. Comecei a pensar e escrevi.

O problema do vestibular é o que ele faz com a escola. Porque o vestibular é que realmente determina os padrões de conhecimento. Tem que ser uma escola que resolva as questões dos vestibulares. Se você acabasse com o vestibular e fosse sorteio, as escolas saberiam que poderiam ensinar qualquer coisa que não está no programa, porque não vai ter exame. Pode ensinar a vida. Pode ensinar literatura sem ter que fazer teste de compreensão, que é absurdo.

Todo mundo reclama que os adolescentes não gostam de ler. Eles têm razão, porque a escola ensina a odiar a leitura, fazendo aqueles malditos testes de interpretação. Começa: o que o autor queria dizer? Então, pegamos a Cecília Meireles: “No fundo dessa fria luz marinha, nadam aos meus olhos dois baços peixes à procura de mim”. Quando faço essa pergunta, estou afirmando que ela queria dizer, mas não disse. Já estou acusando o escritor de indigência lingüística. Pobre Cecília, ela queria dizer, mas gaguejou, saiu esse poema, mas agora, graças à gramática, vou fazer a Cecília dizer o que queria mas não conseguiu. Mas, escuta, nenhum escritor quer dizer nada. O escritor diz. Se quisesse dizer outra coisa, diria outra coisa.

Isso é tão óbvio. Não precisa Piaget. Aliás, acho que essa quantidade de teoria bagunça a cabeça dos professores. Um resultado trágico é que quem passa pela universidade perde a capacidade de pensar. Na Unicamp, me nomearam presidente de uma comissão para selecionar candidatos ao doutoramento. Esses infelizes recebem uma lista de livros, passam um tempão se preparando. Combinei com meus companheiros propor a todos uma só questão: “Fale-me sobre aquilo que você gostaria de falar”. Uma moça entrou em surto psicótico. Deve ter achado que era gozação. Começou a recitar livros marxistas e interrompi: “Já li os livros, não quero que você me repita. Não sei o que está na sua cabeça, quero que você me diga”. Ela não conseguiu.

E - Hoje temos um índice enorme de desistência nas escolas.
RA - Porque não faz sentido. Precisamos reconhecer que existe uma diferença entre o pessoal de classe média e alta e o pessoal de periferia. O pessoal que está nesses colégios que apertam tem uma coisa na frente, que é tola, mas eles têm: passar no vestibular. Quando o pessoal fica nos semáforos porque passou no vestibular, abaixo o vidro do carro e olho sério: “Sou professor emérito da Unicamp. Não vou dar dinheiro, mas vou dar um dinheiro que pode salvar sua vida. Salve-se enquanto é tempo!”

Que garantia um diploma me dá hoje? Essa proliferação de faculdades e universidades pode dar a impressão de que o Brasil, repentinamente, ficou inteligente. Os pais ficam na ilusão de que diploma dá segurança ao filho. As pessoas não percebem que tem diplomado demais, e não tem emprego. Por isso, ao lado dessas disciplinas nas universidades, as pessoas deveriam aprender um ofício. Meu filho é médico e marceneiro. Primeiro, que é bom. Pedreiro, jardineiro, cozinheiro. Vá aprender um ofício, porque não tem garantia.

O pessoal que pode pagar as contas não desiste, porque tem essa esperança de ascensão. Nas classes periféricas, por que fazem o curso? Não estudam para ter saberes que não interessam, mas precisam daquele título para conseguir um emprego melhor.

E - O que você acha das cotas nas universidades?
RA - Uma besteira monumental. Os pretos vão começar a ser odiados. Imagine, você chegou ali, não entrou porque era a hora da cota. Minha solução é melhor: não vai ter cota para ninguém, mas todos, igualmente, rico, pobre, preto, branco, gay, lésbica, o diabo a quatro, todo mundo entra no sorteio.

Gosto muito do Cristovam Buarque, é um cara aberto, mas de duas idéias dele não gosto. Uma é simplificar o vestibular, tendo só Matemática e Português. É aprimoramento dos métodos de tortura. Em vez de você passar por várias máquinas de tortura, vai passar por duas. Você imaginou o prazer dos gramáticos em multiplicar as doideiras para atormentar os estudantes? Traria ódio ao Português, à Matemática, e desprezo pelas ciências que não entram. Outra que não concordo é usar as notas médias do segundo grau para entrar na universidade. Tem um problema: quero ganhar dinheiro, vou fazer uma escola e prometo dar nota 10 e 9 para todo mundo. O Ministério vai ter que fazer credenciamento das escolas dignas.

Há mais de 30 anos, um intelectual brilhantíssimo, católico, Ivan Illitch, escreveu A Sociedade Sem Escolas. A proposta dele é que tem que haver lugares para aprendizagem. Vamos dizer, um supermercado de saberes. Você vai organizar o seu currículo. Por sua conta. Não precisa presença.

A idéia do Ivan: não interessa como aprendi. “Aprendi tudo no sonho, sonhei e aprendi. O que você tem com isso?” Há de haver um teste. Uma validação do conhecimento. Claro. Mas não durante o curso. Quer ser advogado? Não me interessa se estudou numa escola. Vai fazer o exame da Ordem dos Advogados. Médico? Há uma coisa que não está nos livros, a prática. Nesse caso, você tem que enfrentar as aulas de prática médica.

E - É possível essa escola?
RA - Vou dar outro exemplo. Na nossa escola, se você viveu nos Estados Unidos, fala inglês melhor que o professor, mesmo assim tem que estudar “John is a boy, Mary is a girl”; se não estudar isso, não freqüentou a aula. A burocracia é a heresia moderna. O Evangelho diz: “No princípio era o verbo”. A burocracia diz: “No princípio é o relatório”. Se você não está lá nos 75% de presença, você não sabe. A realidade não existe, o que existe é o relatório.

Acho que uma escola dessa, com esse jeito de aprender, é viável e funcionaria. Mas não acredito que vá acontecer, porque há a força inercial das burocracias.

E - Ziraldo costuma dizer que ler é mais importante que estudar.
RA - De vez em quando, uma pessoa me manda pergunta do tipo: o que fazer para desenvolver o hábito da leitura? Deus me livre, não quero hábito da leitura. Hábito é para escovar dente, cortar a unha do pé, tomar banho. Já imaginou um curso para ensinar os maridos a terem o hábito de dar beijinhos na esposa? O cara que dá beijinho por hábito é um robô. A leitura é por puro prazer. Essa é uma razão por que, em relação à leitura, não pode haver exame. Porque se você souber que tem que fazer exame, já não tem o prazer. Vai ler um texto e fica pensando: o que será que o professor vai perguntar? Literatura é vagabundagem. Insisto, puro ócio. Perco tempo lendo García Márquez, mas por que leio? Porque é absolutamente delicioso.

Para simplificar minha teoria, digo que a educação se divide em duas partes. Para explicar as duas partes, digo que o corpo é o sujeito da educação. Não é a cabeça, pois ela é ferramenta do corpo. O corpo sofre e pergunta à cabeça o que fazer para parar de sofrer.

O corpo carrega duas caixas. Uma, de ferramentas, precisa saber martelar, pregar botão, fazer arroz, ler, escrever, falar, somar, multiplicar, ferramentas que aprendo na medida em que há desafios. Não adianta tentar me ensinar a usar solda elétrica, não vou nunca mexer. O que as escolas fazem? Ensinam todas as ferramentas. Têm que ensinar uma ferramenta em relação a determinado problema que você tem. Você vai aprendendo a usar na medida em que a vida vai se desenvolvendo.

A outra caixa é a dos brinquedos. Por que, sendo inútil, a gente mexe com ela? Porque é delicioso. Aí está: escutar música, tocar flauta, ler poesia, empinar pipa, fazer amor, dar beijo, comer. Tem o prazer e a alegria.

A primeira caixa dá meios de vida, a segunda caixa me dá razões para viver. Essa segunda caixa é a que a escola não ensina. Porque logo faz a besteira de tentar transformar esses saberes, esses sabores, em provas. Você tem que avaliar quanto aprendeu sobre Van Gogh e Mozart. Não é possível fazer isso.

E - Em suas palestras, você sente que esclarece ou confunde os educadores?
RA - As duas coisas são necessárias. Há um sentido em que você tem que produzir caos. Nietzsche dizia: “É preciso ter caos dentro de si para dar luz a uma estrela”. Você tem que bagunçar. Coisas que os professores nunca pensaram: por que tem que aprender dígrafo? Qual é a utilidade de análise sintática? Você vai fazendo as perguntas, e eles se dão conta do bestiário.

Uma coisa excelente para descobrir é que, como professor, você não precisa saber o programa. Você saber o programa é saber o saber cristalizado, mas a vida faz perguntas que você não imagina: por que água fervendo endurece o ovo e amolece a cenoura? Isso é pergunta de uma criança. Não está no programa.

Vamos pensar. Daí o professor descobre que pode ser companheiro da criança na diversão de aprender as coisas.

Claro que uma porção de gente fica horrorizada quando falo essas coisas de vestibular. Falo mal dessa proliferação de faculdades, uma enganação. Aqui em Campinas tem não sei quantas universidades, que droga, e não lidamos com problemas básicos da cidade.

A melhor coisa para a gente mudar a cabeça das pessoas não é falando teoria. Precisa fazer. Se você conta a história bem-sucedida, os professores pensam: “Isso é possível. Se é possível lá, é possível aqui”.


Entrevistadores: Elifas Andreato, João Rocha, Laura Huzak Andreato,
Mariana Proença e Mylton Severiano (por escrito). Fotos: Manoel Marques



Enciclopedinha do Papo:

Adélia Prado, 1935-: grande poetisa mineira; autora, entre outros, de Bagagem (1976) e O Coração Disparado (1978).

Albert Camus, 1913-1960: jornalista, ensaísta, romancista e dramaturgo: nasceu na Argélia e é autor, entre outros, de O Estrangeiro (1942).

Cristovam Buarque, 1944-: pernambucano, engenheiro mecânico e economista, ex-reitor da Universidade de Brasília – UnB, e ex-ministro da Educação.

Fernando Pessoa, 1888-1935: escritor e poeta português, inaugurou a escola modernista em seu país.

Friedrich Nietzsche, 1844-1900: filósofo alemão, crítico do cristianismo e defensor do homem como criador de seus próprios valores. Autor de Assim Falou Zaratustra e O Anticristo.

Guimarães Rosa, 1908-1967: grande escritor mineiro; autor, entre outros, do romance Grande Sertão: Veredas (1956).

Ivan Illich, 1926-2002: filósofo italiano que morou no México e incentivou a universidade aberta, especialmente voltada para os problemas da educação e independência cultural da América Latina.

Jean Piaget, 1896-1980: educador suíço, pioneiro no estudo da inteligência na criança.

Jorge Luis Borges, 1899-1986: escritor argentino. Autor de História Natural da Infâmia (1935), entre outros, deixou seguidores como Gabriel García Márquez.

José Saramago, 1922-: um dos escritores portugueses mais lidos e traduzidos. É autor, entre outros, de Ensaio sobre a Cegueira (1995).

Manoel de Barros, 1916-: advogado, fazendeiro e poeta mato-grossense. Seu primeiro livro foi Poemas Concebidos sem Pecado (1937).

Mozart, 1756-1791: músico austríaco, grande compositor de sinfonias; concertista, deixou quase 800 obras.

Octávio Paz, 1914-1998: poeta mexicano, um dos maiores da América Latina, publicou mais de vinte livros, entre eles, Luna Silvestre (1933).

Santo Agostinho, 354-430: escritor africano, autor de grandes obras como A Cidade de Deus (413-427) e As Confissões (397).

T. S. Eliot, 1888-1965: poeta, crítico, ensaísta e dramaturgo naturalizado inglês; ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Van Gogh, 1853-1890: pintor holandês, pós-impressionista, inovou no uso de cores vivas.



Almanaque Brasil de Cultura Popular. Edição 56 - Novembro/03. Papo-cabeça Pra Pensar